A garotinha arrumava os cabelos loiros tomando cuidado de
lhes deixar perfeitos ao seu gosto. Fios claros e reluzentes, bem alinhados e
penteados não passando de seus ombros e terminando num ângulo horizontal
perfeito, assim como a franja que quase chegava aos seus olhos. Após isso, dava
uma nova espiada no livro ao seu lado pondo as luvas de látex e tirando uma
afiada faca de dentro de sua mochila rosa. Não tinha achado substituto melhor
para o bisturi.
Anna Lybatho tinha 12 anos, era uma linda menininha e
desde que aprendera a ler teve fascínio por anatomia. Um interesse muito
estranho para sua pouca idade, era verdade, mas Anna jamais foi o que se pode
chamar de normal. Sempre exata em suas ações, sempre certa ao que queria e
profundamente dedicada ao maior nível de perfeição em tudo que fazia, somente
limitada pela idade que tinha. A verdade é que a jovem Anna jamais aparentou
ter a idade que tinha. Sempre cuidando de sua aparência a um nível militar,
nunca realizando gestos muito bruscos. Dona de uma frieza de nunca falar demais
e um olhar penetrante gélido em par com seus olhos já azuis, era quase
impossível de dizer que Anna Lybatho tinha 12.
Para Anna, mesmo em sua mente infantil, o mundo era algo
errado, fora de ordem, desigual. Começou como algo simples ao qual o olhar se
detinha as vezes – uma marca na pele, uma cicatriz...Depois passou a incomodar
pouco, como um cisco no olho – um detalhe diferente em uma das maçãs do rosto,
dedos a mais em uma das mãos...E logo se tornara uma dor excruciante que lhe
atacava mente como facas quentes fincadas lentamente em seu cérebro –
acessórios, tiques nervosos, modo de pentear o cabelo...A falta de ordem no
mundo era a grande maldição de Anna Lybatho, a infeliz mania das pessoas de
desrespeitarem a ordem de tudo, burlarem a igualdade das coisas, quebrarem a simetria que, por padrões simples,
definia a premissa básica da beleza. Todos eram abominações errôneas, impuros,
dementes. Essa era a lógica bizarra que regia as ações de Anna
Pessoas ou animais, Anna via tudo num padrão, um padrão
que tudo e todos estavam dispostos a quebrar –fazer da ordem o caos– isso era
algo horrível. Mas assim como os outros podiam quebrar a ordem, ela podia
restaura-la. Anna descobrira a pouco tempo que ela mesma poderia tentar
concertar as coisas a sua volta, porque não? As pessoas não sabiam como eram
monstruosas com suas diferenças, em suas tentativas de individualidade
quebrando a ordem natural da natureza. Ela podia mudar isso, e isso era
maravilhoso.
Aproximava a lâmina da barriga inchada e macia do animal.
A gata scottish fold da família
guinchava a esperneava amarrado com as quatro patas esticadas de modo a
deixa-la de barriga para cima. Anna espiava o livro de medicina animal mais uma
vez e sorria, órgãos e mais órgãos preenchiam o interior daquela barriga
inchada de gravidez do animal, mas apenas uma coisa lhe interessava, a vida
gerada ali dentro.
A lâmina penetrava na carne fazendo líquido vermelho
brotar, Anna traçava uma linha horizontal dividindo bem ao meio cortando e
cortando em meio a guinchos de choros animalescos de pura dor e desespero. Na
verdade era até engraçado, pensava a garotinha enquanto sangue fazia-se farto
ali, sendo ratos, gatos, pássaros ou cachorros, não importava, a aura de medo e
dor que sentiam era a mesma. Engraçado como todos são iguais perante a morte. Por fim o rastro vermelho terminara, a
barriga do animai abria-se como uma caixa junto com tudo mais na frente. Sete
minúsculos fetos felinos (não eram nada diferentes dos de cães ela notara) postavam-se
encolhidos e unidos no interior viscoso do animal, Sete.
– Pena...muito mesmo.
A garotinha se lamentava perante o padrão desigual e
impreciso que a própria natureza submetia os seres vivos tirando os fetos um
por um e atirando-os todos dentro de uma antiquada fornalha que ali estava
junto com a gata já quase morta.